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Literatura

Contos

Além da música, Eliane Bastos escreve. Uma seleção de contos e textos autorais — toque num título para ler.

01 O Jardim da Casa Marrom 3º lugar · Concurso de Contos da UniBrasil

... – “ Penso que nunca foi tão fácil. Nem mesmo sei se existiram outras tentativas. Talvez seja apenas uma questão de atenção, mas o fato é que hoje eu andei do outro lado da rua. Se foi o destino, o acaso, a intuição, ou o frio que bateu repentinamente com um vento gelado de julho, eu não sei; quando dei por mim estava do outro lado da rua. Como é lindo estar ali. Quanta coisa diferente eu vi. A sombria figura da senhora que se escondia do frio agora me parecia muito distante mas o jardim da casa marrom, hum!!! O jardim da casa marrom... tão lindo e tão grande e tão ... único.

Únicos também somos em nossas emoções e com outros seres fazemos o dia-a-dia do universo.

A desordem me atinge. Como coexistir com ela?? Qual o papel a desempenhar? O da alquimia espiritual que impulsiona para a descoberta seguida de novas dúvidas e outra vez a busca, e mais outra, e assim concluir-se sozinho, na solidão.

No passado deu-se o ocorrido naquele imenso quintal; quintal de uma casa do interior. Tudo gigantesco, quando não alcançado pelas mãos que “olham”. O herói imaginado subia em árvores, protegia a pequena de seus agressores temíveis. Ali eram enterrados tesouros, cadáveres cruéis, que tombavam ao final de cada batalha. O mundo eram árvores e galhos e portões e aves e sonhos; Um dia, a pequena menina partia para mais uma aventura quando um galho que a sustentava quebrou. O tempo parou. Uma voz se calou. A respiração, nada. Instantes, incertezas. A inspiração inundava o pequenino ser.

O tempo marcado voa; a casa é outra e com ela novas aventuras, novas árvores, novos vizinhos. Um vizinho velho. De onde surgiu? Com que direito ele toca no corpo irriquieto da pequena e umedece seus olhos quando o hálito quente insiste em se aproximar?! A sala fica pequena, o corredor longo demais, as portas estreitas e o ar, tudo parece afugentar o brilho do céu e o sol que até há pouco iluminava a imortalidade da alma... Há um refúgio sim; a maternidade sempre perfeita e sábia, o aconchego do “lar doce lar’. Quando foi a decisão absurda de viver o pecado, para o corpo e para a simplicidade do sorriso? Havia o Adão das maçãs que foi expulso do paraíso e agora atormentava pequenas sementes neste inferno de ilusões. Quem? Ecoava maternal e duvidosa de tudo a voz nos ouvidos da infância desabrochando, esperançosa que tivesse sido apenas um sonho, ou melhor, um pesadelo. A pirralha havia perseguido até a morte um pequeno “patinho feio”, cinza e mínimo e lindo na sua rara penugem. Penso que todos possuímos o pé (de laranja lima, de figo, manga); o dela era de ameixa: amarela, que chegava sempre nos setembros da vida deixando molhada a boca de saliva desejosa pelo pensar assim, sem lavar em água nem nada, enfiar toda, todinha saborosa, de acidez que enlouquece. E ainda a outra, a Coração de Boi, grande, que um dia alguém por maldade fez a gentil proeza de decepar e com ele foram os suaves e doces e duros e verdes momentos de infância (que fazia as vezes do telhado próximo seu refúgio). Segredo que ela mais tarde, uns vinte anos mais tarde iria contar.

Então a menina cresceu... O olhar agora não é mais tímido, longínquo. É aqui e agora no momento preciso, quando projeta trabalhos, sonhos e amores sem torturas.

Na timidez o sol inicia um novo período; o canto de dor também pode ser de amor. Vibram as cordas vocais para uma doce saudade. Saudade do quintal, da rua, da igrejinha, do velho que agora está mais velho e já não é tão assustador. Ainda, a inspiração insiste em não abandonar a mente que viu sentido em atravessar a rua e olhar com olhos de descoberta a velhinha que já não está lá. Talvez tenha mudado, talvez um dia volte, talvez nunca tenha existido, talvez tenha apenas feito uma viagem daquelas não se sabe pra onde, nem com quem, e se realmente havia uma rua com seu outro lado.

02 Conto de Adeus

...O tempo entre as pessoas é diferente...ele pára aqui enquanto ali aparece feito raio; tão ligeiro já foi -Insustentável Leveza do Ser - não quero a máscara reproduzida frente ao espelho. Parecemos personagens de filmes, livros, criações em série de atos, palavras, ações e segue ainda “por minha culpa minha tão grande culpa” à dentro...tenho me olhado velha: a imagem. Tenho chorado mais que usado sorriso. Tenho desejado ser o que não sou e isso magoa, confunde, dilacera. Reconheço o amor declarado, o amor visualizado, o amor demonstrado em pão, de minuto. Reconheço a ausência optada, assim como a presença ameaçada. (olhares, horários,deveres)...reconheço... penso que estou fora do tempo geral. Fora do espaço e alternativamente eu caminho ameaçando a sanidade que mais apavora pois a sinto diferente. Meu tempo não pode mais ser o tempo da espera, da necessidade, do anseio, do talvez. Notícia anunciada. Providências a serem tomadas. Realidade. Ela é assim. Nos invade feito uma onda grande, dessas que no sonho afoga a tristeza pois tira o ar da alma da gente. E ela, a alma, vai e vem; infindas pequenas viagens Universo adentro. Não há ainda como cortar amarras de interesse mútuo, trabalhado. Os rasgos devem, entretanto, alternarem-se profundos e definitivos. Ah, se intuísse sons e visões diferentes, mas não. É um sentir exato da imensidão do Ser. Não é estar sozinho. É saber estar bem no mundo. A espera não é aqui. É além, do tipo nada a fazer. É esperar a nave certa, a dose amarga da bebida mágica que fará dormir os olhos pares e deixar ímpar tranqüilidade a envolver. Alegria de saber isso. De saber viver. De abrir sorriso amigo, mamigo, para melhor entender. E eu compreendo. E peço perdão. Pela fraqueza, pela insensatez, pela chatice, pela estupidez, pela idiotice, ou burrice, de saber a escolha não ser necessária. Ela já é; morena ansiada, de olhos grandes, esmeralda, bate cabeça e cheira essências e desiste de esperar. Ah...a realidade da tarde fagueira, blue, limpa e corajosa! Nem tanto assim. O verbo se faz escrita, “datilografia” ao entardecer. Não quero ave rara. Quero um vôo livre, de gaivota e assim não olhar para trás. É a sabedoria bem-vinda. É saber a hierarquia, ou preferência, ou o que é de lei, ou regra, ou simplesmente amor verdadeiro. Não busco mais nada. Não posso lhe dar nada além do que possuo. Meu único bem é o que enxergo Além de Mim: Toda Essência espalhada feito concha quebrada junto à água do mar. Ah! O Mar! Tão doce, tão longe, tão desejado, tão cheinho de sal, tão puro feito cantiga de ninar. O meu amor só sabe ser assim; compartilhado, aqui e ali, extremos que atraem risos, noites, boites, cheiros, cores, dores, catadores, acenos, cumplicidade. E tudo isso eu já sabia. Desde sempre eu sabia. Na transparência da amizade eu admirava e sozinha, encolhida, feito bebê eu chorava; o pranto de quem vive da coragem de saber ir ao quarto de hotel e acelerar as batidas e ritmos, e arrepios, da porta escancarada. Era o anjo, meu, de azul manso, cabelos em neve, olhar de criança no homem anunciado que já é. Coragem de voltar ao mesmo quarto e encontrá-lo vazio, tempos depois. Sem quentura de paixão, de tesão; não, isso não. Sem presença. Sem ele, o lado inteiro da parte que me faz mais feliz por saber existir. Mas não é nosso o seu amar. É proibido, ou nem assim exibido. É um respeito, um mais que gratidão. É companheiro o amor do anjo meu pela bela amada. São dela os poemas ao mar; as dores das perdas; os afagos das manhãs despertas; da cama desalinhada, da precisão e da admiração. Não há por que mudar; não sei se há como viver. Sei de nada. Sei de dor que dói fundo no coração. Sei de sair de casa e experenciar coisas, mas de ter de saber compreender o amor de volta pra casa, porto seguro de quem sabe o que quer. Não, não há por que negar que o amor não veio. Não virá? Não me deve nada; não posso lhe dar mais nada. Tão somente o meu canto de adeus.

03 Alucinação

Uma febre que vem sei de nada nem de onde; um engolir amargo que parece de estranho mal feito; não foi impulso meu o beijo na boca; foi um quase de susto de sentir bom e assim querer por demais o sabor de tu; mas foi tirado, não dado; e desde lá o Amor; não um querer bem, Deus, que assim fosse!! Nem de nada mais eu tenho pra oferecer; já fiz de um todo, entreguei corpo, coração, alma então?? Mas aquela esperança que dá um pequeno sossego, foi de há pouquinho, devagar devagarzinho, quase nem percebi; só de sentir...o aperto no corpo doído, a saudade no pensar esquecido? O choro no aguardar, sem grito. Ao fim que se deve dar, já foi dito. Só agora compreendido. À labuta! que o compromisso é feito; “cuspido” e honrado; de voltar palavra dada não se sabe quem o faria; eu? Por certo que não. De ver cada vez menos as vistas fazem pena mas suporta a carne que nem de mal de fervor, de querência pede; de livrar, feito porta de gaiolinha se abrir por mão de moleque levado, sabido, nem de leve arrependido. E o sentimento mesmo não era pra mim, mas de mim foi feito um sentir tão intenso que agora rezo palavras e canto pensamentos. De serventia pouca, quase nada, se o ouvido seu não carece mais?...que o leva e traz do vento assoviem melodias que eu teimei tanto não escutar... se ficar pode e de existir carinho, então o amigo se mantém, se acaricia e quer bem. De longe, de perto, de ver de não tocar nem de leve, nem de lábios, nem de dor, quem dirá de sabor?! Segue o rumo, entorpecido, certo, que o bem de Amor se guarda, jamais jura, nem se enjeita. Virar barrancos e logo talvez mais perto o aroma se faça gente e possa eu deitar paz num colo quente e assim, adormecer.

04 Parque Encantado

....E não é que no Bacacheri - , uma tarde, eu juro que vi, um desses trens coloridos, a se estender cadinho mais e se deixar absorver por entre árvores, e guerreiro que é, o anjo da canção e guardião da chuva e vento se abastecer nele? nossa!!!! e assim foi...(dizem os contadores de causos) e quem sabe os cantadores de modas...que é o encantamento que vem chegando e nos deixa a ver arco-íris pelos céus de verão... Num dia, três de uma só viagem! E que viagem! Se o poeta estivesse atento por certo escreveria uma canção; pois tem cabimento não, tamanha ousadia do senhor do tempo, invadir assim nossa atenção...seria a junção perfeita de homem, chão, mulher, coração...Vai, escritor: escreve. Em alto e bom som cante verso, recite harmonias e por mais absurdo que pareça, cresça comigo neste andar de aqui pra ali ingênuo e profundo; e você, cabra desses de dar um “ruim” de tão bom, pode tomar pra si esse grande feito; por um trio de linhas coloridas cortando o céu, de fio a pavio, coisa igual pouco se viu, se é que é de se ver? Ou quem sabe de assistir e duvidar? Ou de colocar a lucidez pra guardar sonhos e transformar a sombra de um dia de paz em várias redes de buscar víveres sem alma. Apenas na mais profunda calma, existir. E assim, nesta mansa volta pra casa, pra si e pra ninguém mais, findar um belo dia, em perfeita harmonia aguardar o que o próximo amanhecer terá por certo o prazer, e nós o dever, de querer partilhar.

05 Deserto

Bem devagar. Assim veio você. Se fez meu, no presente. Algo assim como a imagem retratada em preto e branco, ou tanto quanto o mistério que espelhos da vida tentam nos descrever. Veio lento, seguro e se colocou entre mim e a criatura que se traduzia em riso e dor. Veio mais forte e belo do que alguém poderia sonhar; a menina em cetim – desejo e amor? A mulher em frágeis tecidos – entregue à flor, da pele ao coração...E foi assim: ao som de notas ao longe, longe, alçando um vôo não mais solitário, No despertar de um etéreo momento, em algum lugar mágico, que a vida voltou a possuir sentido. Pleno. A beleza unida em individualidades completas, buscando apenas o aqui e agora, gritando em silêncio, ou não, um instinto puro e sincero. Ao cair uma lágrima apenas, não percebida mas deixada, de menina, se fez mulher. No perfume de homem que é, deixa sua presença em nós... assim, no doce sabor que eu posso contar que havia, e que um dia, bem devagar, novamente experimentaria??!! Então, seguir... prossiga o caminho de paz; siga a verdade que agora, no instante, se faz...e ao deixar colocar-me ao seu lado, apenas siga... siga!

06 De Luna para Bia de Luna (in memoriam, 2007)

Claro que de Luna estava ali; eram dois desconhecidos “discutindo” em monólogos interessantes. A outra personagem, também poeta, falava pra alguém ouvir....não poderia ter sido diferente. Eu ouvia pois não estava tão longe, alheia para eles e totalmente imersa no que acontecia. E de um olhar aqui e ali, mergulhava no ambiente quase vazio de um salão sem baile. Chovia muito. Noite de comemoração; de música, letras, fichas, telefones; de emoção, de confirmação. Era de noite; mas também, se fosse de dia e o sol brilhasse aconteceria assim mesmo, do jeitinho que foi.

07 A Gosto para Mari

Então decidiu-se por escrever. Foram poucas palavras não porque tivesse o domínio de morte, apenas almejava algo mais em vida, de sobre a vida. Só? Tantas lágrimas, crenças, gritos, horrores, olhares e poucas palavras? Linhas, então? Daí, catam-se personagens interessantes, incessantes na maneira de inquirir e do nada, é, assim do nada vão pipocando frases que se agrupam umas às outras na tentativa cômica, virar realidade! Pode que seja um modo, a criação, uma piração de zombar do tu, no espelho de principados alucinantes. Quem sabe? Mas deve de ser assim. Igual quando a gente lembra de varar a noite pra poder mergulhar em beijos de amigos e cantar soprando velas e cantando canções de amores. Sabe só pra que? Pra se rir feliz de tanta coisa passada, de tanta dor afogada, tantos prazeres em cores, cantorias e pão e vinho e de novo o cantar. É o capítulo pra hoje. Um leve conto em gotas, de dizer pra alma de olhos claros, de mar leonino como juba fosse a ir e vir, cada grupo de ondas a nos presentear em partes, o que o mundo deveria conhecer, inteira.

08 Pobrezinha

e agora? são duas; passaram a ser irmãs quando a mais nova foi adquirida quase morta. eu falo da “pobrezinha”, que passou a integrar a família dos meus amigos Erons e da ‘branquinha” que veio um ano depois. foi assim:

primeiro veio a “pobrezinha”, de um vermelho quase apagado de tão jogada neste mundo; chegou fazendo festa pois sua buzina, meio “rouquinha”, ainda funciona. é a alegria do povo na Mnf produtora fonográfica. Há um ano estive por lá pra ver a possibilidade de produzirmos um cd juntos. botei olho na variant “estendida” lá fora...quem tem pneus carecas daquele jeito não pode nem estacionar...se estende e quando tenta andar, se arrasta (pobrezinha)... amei tanto que perguntei o que era?? de quem era?? o que fazia? pra onde iria?? Respondidas as perguntas eu fiquei ainda mais curiosa pela criatura: parecia me olhar e eu comecei a amá-la ....há uns 3 meses atrás o maior susto: pobrezinha, vejam só: foi roubada.....que brutalidade!! anormalidade...quem faria uma coisa dessas?? pensamos em sequestro, terrorismo!!! a polícia bateu madrugada, na porta da Mnf....eronzinho, sonolento, parecia um sonho!! encontraram uma variant vermelha ano tal e tal.....e assim foi. não é que a pobrezinha, fiel ao seu dono, pra toda vida, ficou ali, metros da sua casa, parada, estática e não moveu mais nenhum “músculo” ops!! ....”ferros, meio velhos??!! após saber deste amor imenso dela pelo seu dono , minhas esperanças de compra foram água abaixo...como desfazer uma paixão tão linda!!?? bem, mais um mês passou: eu sonhando com ela a pobrezinha, pra botar nela a logomarca da empresa, um alto falante no tipo e sair interior deste meu paraná afora, quem sabe Brasil?? será que ela agüentaria?? vendendo cd´s...meus, teus, aqueles que não tem chance nas prateleiras da vida....aqueles que como a pobrezinha, variant indefesa, luta pra sobreviver?? isso seria lindo!!! Mnf nas portas....iria ser do caramba!!! toda moderninha...e minha... ai ai!!

quando eu já quase desistia, eis que numa reunião com Eronzinho eu perguntei assim bem discretamente, sobre a pobrezinha...e foi aí que ele me falou:

- ganhou uma irmã....é que o Eron(pai) trocou um material de segurança que tinha...por uma Variant branquinha, ainda mais velhinha ahahahahahahah!!!! ri a toa, ri muito, ri pra mim do que só eu sabia....

09 L

Olhando no espelho de sua casa interior, na casa do interior, via olhos negros, olhos de firmeza, de cuidado, de rapina. Dado que um nome surgiu, como deveria ter sido o seu. Mudou que foi para não encolher no meio do caminho e então, virou outro. Deixara, porém, marca tão forte que bem assim uns tempos depois de nascer, ouviu dizer que alguém, como parte de uma família de aves desenhadas cortando o céu, chamaria sua atenção num vôo diferente. Atraída pelo sentimento que coração para coração conseguem realizar, limitou-se a prestar atenção e seguiu, na certeza, também não se sabe bem o porquê, de que o intuído seria real, um dia, qualquer dia.

10 O Muso

A cidade amanhece sem quintal. Sem sol, sem carro. Traz silêncio inspirador o vento que faz lembrar quem sou, pois tenho frio. Ainda assim meu ar é quente pois nesse vai e vem da gente foi possível parar e calar e adormecer e sonhar.

- Hei, sabe o que eu vi ali, no berço de gente grande e talvez num outro lugar, quando sempre pensava apenas um ser e buscava, como a preencher de tudo o que é de melhor na vida, de modo assim a ficar toda faceira, a alma?

- (silêncio).

- a beleza divina, sim, de Deus, sim, de quem foi guiado pelos anjos, sim, desses que chegam tocando as trombetas, de alegria, de anunciação.

- Sabe aí, você, o que é andar lado a lado com a coragem, a força, a fé, a luz, a paz, simples assim?

- (silêncio) de novo.

- Ouvir a voz de alguém que anuncia a chegada ao mesmo tempo a partida, não importa, pois, agora a resposta tantas vezes camuflada, suspeita, se faz amor de verdade, gia panda sempre e ele é paz, é ternura, é você, então chegar ou partir já não tem diferença alguma, são ações de almas, coladas, num corpo só. Luz no escuro sombreando tudo o tempo todo, num largo sorriso que a gente quer entrar ali, nele, no sorriso, claro, e ficar quietinho, torcendo pra que a boca não queira falar; se fala, como fica? Ai que é tão lindo, meio que dói, mas uma dor que não é mágoa, nem causa, nem defeito. É real, mas não machuca, é presente pra lembrar que foi mesmo de presente, essa paz de amor, de calor, de ver o lado mais puro que eu sempre pensei ser meu também. E é.

11 Ela

Lá vem esse cachorro que late, que late e late e entra pela janela, feito intruso mesmo, de atrapalhar a certeza da gente. Não é não? Entra também pela janela, este chega feito ruído, com certeza atrapalhando a quietude da mente. O apelo é inocente, quase dolente, meio uma criança grandinha, no jardim da infância, a cuidar deles, crianças também, ora ali, ora ali de novo e outra vez, falando a fortes pulmões, não fosse a lembrança recente. Dela, a malvada, a cruel, a que tudo vê e ouve e sabe, ela a que sabe, que ouve, tudo vê, cruel. Ah, essa malvada: a síndica.